Destilarias artesanais de Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina exportam para mais de 60 países. A cachaça deixou de ser "pinga" e virou objeto de desejo para bartenders e colecionadores internacionais.
Em 2010, o Brasil exportava cerca de 10 milhões de litros de cachaça por ano, a maioria em garrafas de plástico vendidas por menos de US$ 5. Em 2024, o volume caiu para 8 milhões de litros — mas o valor exportado triplicou. A razão é simples: a cachaça brasileira está ficando mais cara, mais sofisticada e mais desejada.
A transformação começou com um punhado de produtores artesanais que, nos anos 2000, decidiram apostar em qualidade em vez de quantidade. Eles reduziram a produção, investiram em alambiques de cobre, começaram a envelhecer a cachaça em barris de madeiras nativas brasileiras — amburana, jequitibá, ipê — e passaram a participar de competições internacionais de destilados.
A Cachaça Germana, de Salinas (MG), foi uma das primeiras a ganhar reconhecimento internacional, com medalhas em concursos em Londres e São Francisco. A Weber Haus, de Ivoti (RS), trouxe a influência da imigração alemã para a produção de cachaça e criou um produto com identidade única. A Nega Fulô, de Piracicaba (SP), apostou no envelhecimento longo e hoje tem uma linha que envelhece por até 12 anos em barris de carvalho francês.
"A cachaça tem uma complexidade aromática que o rum não tem. Quando você usa cana fresca, fermentação natural e madeiras brasileiras, o resultado é um destilado que não existe em nenhum outro lugar do mundo." — Rodrigo Moreira, mestre destilador
Os maiores mercados importadores de cachaça premium são Alemanha, Estados Unidos e Japão. Na Alemanha, a cachaça brasileira compete diretamente com o rum jamaicano e o mezcal mexicano nas prateleiras de lojas especializadas. No Japão, onde a cultura de destilados artesanais é muito desenvolvida, a cachaça encontrou um público apaixonado e disposto a pagar preços premium.
Em Nova York, bares como o Death & Co e o Attaboy incluem cachaças artesanais brasileiras em seus menus de coquetéis autorais. A caipirinha — que por décadas foi o único coquetel com cachaça que o mundo conhecia — deu lugar a criações mais complexas que exploram as notas de baunilha, especiaria e fruta tropical das cachaças envelhecidas.
A cachaça tem uma proteção geográfica reconhecida internacionalmente: só pode ser produzida no Brasil. Mas dentro do Brasil, a regulamentação ainda é complexa. A distinção entre cachaça artesanal e industrial, o uso de madeiras nativas, os critérios de envelhecimento — tudo isso está em discussão no setor.
O Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac) está trabalhando em um sistema de certificação que permitiria identificar claramente as cachaças de qualidade superior, similar ao que existe para vinhos e destilados europeus. Se aprovado, o sistema pode acelerar ainda mais a valorização da bebida no mercado internacional.