Redes de algodão do Ceará, cerâmica de Caruaru e cestaria do Pantanal chegam às vitrines de Paris, Nova York e Tóquio. O artesanato brasileiro está vivendo um momento único — e os artesãos finalmente estão sendo reconhecidos como artistas.
Quando a designer francesa Amélie Dubois visitou o Ceará em 2022 para uma pesquisa sobre têxteis tradicionais, ela não esperava o que encontrou. "A qualidade das redes, a sofisticação dos padrões, a variedade de técnicas — era incomparável com qualquer coisa que eu tinha visto na Europa", ela conta. De volta a Paris, Dubois começou a importar redes e tapeçarias cearenses para sua loja em Le Marais. Em seis meses, tinha lista de espera.
A história de Dubois é um exemplo de um fenômeno que está transformando o artesanato brasileiro. Depois de décadas sendo tratado como souvenir barato, o trabalho manual dos artesãos brasileiros está sendo redescoberto — por designers internacionais, por marcas de luxo e por uma nova geração de consumidores que valoriza o feito à mão, o local e o autêntico.
O Alto do Moura, distrito de Caruaru em Pernambuco, é o maior centro de arte figurativa em barro do Brasil. Lá vivem e trabalham mais de 100 artistas ceramistas, muitos deles herdeiros diretos da tradição de Mestre Vitalino, o artesão que no século XX transformou o barro do sertão em arte reconhecida internacionalmente.
Hoje, as peças de artistas como Marliete Gomes e Zé Caboclo chegam a custar R$ 15 mil em galerias de São Paulo e são exportadas para colecionadores nos Estados Unidos e na Europa. O que antes era vendido por R$ 20 na feira de Caruaru agora tem certificado de autenticidade e seguro de transporte.
"Meu avô vendia boneco de barro para comer. Eu vendo para colecionadores. Mas o barro é o mesmo, as mãos são as mesmas." — Marliete Gomes, ceramista do Alto do Moura
As mulheres da comunidade ribeirinha de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, produzem há séculos cestas e objetos decorativos com fibras naturais do Pantanal — buriti, carandá, bacuri. O trabalho é intrincado, lento e exige conhecimento profundo das plantas e das técnicas de trançado.
Em 2023, uma coleção de cestas pantaneiras foi incluída na exposição permanente do Museu de Artes Decorativas de Paris. No mesmo ano, a marca italiana Bottega Veneta usou técnicas de trançado inspiradas na cestaria pantaneira em uma coleção de bolsas que custavam mais de US$ 3 mil cada.
O sucesso traz dilemas. Como garantir que o artesão — e não o intermediário — se beneficia do aumento de valor? Como crescer sem perder a autenticidade que torna o produto especial? Como proteger técnicas tradicionais da apropriação sem crédito?
Organizações como o Sebrae e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estão trabalhando em programas de certificação de origem e capacitação de artesãos para negociar diretamente com compradores internacionais. É um começo, mas o caminho é longo.